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São muitas as alternativas que as pessoas encontram para lidar com as grandes linhas suspensas de suas vidas, zonas indefinidas tramadas no ocultamento e que parecem nunca suficientemente apagadas. Aspectos, fatos e provas constituem um resto que está sempre retido, disposto e armado para eclodir a qualquer momento, ferindo uma existência – que, devastada, carregaria consigo sua imagem lapidar–, expondo o ridículo de uma fraqueza ou a fatalidade de um deslize.

Melhor seria acreditar que ninguém pode dizer que não tem segredos, que não se sente por um fio, vulnerável como se tudo, sem exceções, estivesse a ponto de desvanescer frente a uma banalidade. Tal seria o consolo impossível. O que fazer, então, quando as paredes não são de vidro e não se pode apagar todos os vestígios porque não se pode reescrever, refazer o trajeto nem fugir sin dejar huellas? Há os que deitam suas confissões em ouvidos quase anônimos. Outros, menos abonados, precisam lidar sozinhos com a  ansiedade causada por essa iminência que não cessa nunca e nem poderá ser definitavemente apagada; que, pelo contrário, frequentemente se renova pela lembrança, reavivada no simples fato de acenar à memória o seu caráter de terror factível.

Para não enlouquecer, para lidar com a eterna ameaça e, sobretudo, para processar como aprendizado possível o sobressalto é que a negatividade da bancarrota – que, acontecendo, seria irreparável – e a constatação de sua permanência como fato não-acontecido vêm sublinhar as condições favoráveis do presente e podem talvez assinalar a alegria de corda bamba que precede a catástrofe. Talvez não haja exercício maior contra o pessimismo que aprender a lidar com essa iminência constante da perda total e celebrar, a cada dia, a sua não-consumação como renovação de uma benção ou como segunda chance. Talvez, também, não haja maior incentivo que a indefinição do dia seguinte para a determinação de acionar um plano de fuga (para o caso de que tudo precise ser deixado para trás, a começar pela vaidade que sobrecodifica uma imagem).

Aqui, pois, um espaço de reabilitação, de alternativa, de articulação de delicadas forças frente ao vício, ao pensamento temeroso e à ansiedade que não encontra apaziguamento definitivo possível. Uma madriguera, máquina de guerra contra a ansiedade, o temor e o desespero.

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